Bate o sino, (n)o pequenino

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Com a crise financeira internacional, a entrada do Obama no governo da nação mais poderosa do planeta e as notícias da imprensa construídas ao longo do ano em torno de seqüestros, assassinatos, casos escabrosos “que chocam a família brasileira”, a imprensa tupiniquim conseguiu neste último dia 5 de dezembro outro incrível “furo de reportagem” digno de nota para qualquer programa televisivo de “Retrospectiva 2008”. Descobriram a existência de trabalho escravo na indústria mais popular e requisitada  dos finais de ano: a fábrica de brinquedos do Papai Noel.

A reportagem saiu ontem numa das grandes revistas brazucas “formadoras de opinião”, trazendo fotos  impactantes sobre o trabalho servil dos pequenos elfos do bom velhinho, agrilhoados e movidos pelo incessante e ameaçador som dos chicotes. E que chicotes originais, todos eles vermelhos com sininhos nas pontas, transformando o simbólico som numa melodia deveras macabra… “bate o sino, [n]o pequenino”. E não é que meteram as renas do Papai Noel para trabalhar numa espécie de engenho para empacotar os brinquedos mais rapidamente? Isso mesmo, todas elas, Dasher, Dancer, Prancer, Vixen, Comet, Cupid, Donder e Blixem, exceto por Rudolph, a rena do nariz vermelho que, apesar de ter escapado a tempo, se viu barrado no Aeroporto Internacional  de Montréal-Mirabel, Canadá, por não ter levado consigo a documentação. Bem, e o que ele estava fazendo no Canadá a revista não soube informar.

Quem seriam os responsáveis por tamanha atrocidade? Dos inimigos prováveis, uma surpresa. Uma salva de palmas para o Grinch: neste ano de vacas magras o abelhudo e fedorento monstro de cor verde viu a situação dos pequenos elfos que seu coração tão, mas tão pequeno, bateu mais uma vez e encheu a pobre criatura de compaixão, ajudando os pequeninos na fuga através de um elaborado esquema para despistar os malfeitores, anotando minuciosamente numa lista o nome dos elfos e das renas que deveriam ser poupados para trabalharem com ele.

De acordo com a revista a culpa recairia quase que unicamente nas costas de Jingle Jones, sobrinho um tanto quanto distante do Papai e Mamãe Noel que, aproveitando a abstinência  dos tios, tomou as rédeas da produção para deixar a fábrica mais competitiva diante deste mercado em crise. Absurdamente deprimidos com a violência mundial Papai Noel e sua esposa foram encontrados num spa na Austrália pela repórter responsável pela matéria, alegando que o Caso Isabella e o Caso Eloá foram “a gota, o fim da picada”. Aí fugiram, claro, quem não fugiria?

Ainda na referida reportagem ficou evidente a confusão das autoridades e pensadores dos Direitos Humanos que não sabiam o que fazer. O advogado norte-americano e especialista nestas questões, Barnaby McTurner fez um pronunciamento à imprensa, mostrando-se mais perdido do que Rudolph no terminal canadense: “são elfos e renas, nenhuma constituição de qualquer país do mundo possui artigos e leis para elfos e renas… mas felizmente já conseguimos com o governo cadanense o suporte e asilo político para Rudolph, a Rena do Nariz Vermelho”.

Após o furo tupiniquim a imprensa internacional começou a noticiar em tempo real este impasse natalino e seus desdobramentos. Como apresentado no maior site de notícias da internet, a trágica história promete marcar o verão de 2009 nos cinemas com o lançamento – às pressas – do filme “A Lista de Grinch”, narrando a dramática aventura da criatura verde seussussiana, além da intimação imediata para comparecimento em tribunal internacional do Papai Noel pelos seus atos de negligência já devidamente comprovados. Enquanto muitos bradam nas ruas “Elf Power”  e “É o fim do Natal”, Jingle Jones garantiu há pouco em entrevista coletiva o abastecimento mundial dos presentes de Natal, porém prevendo até 7 horas e meia de atraso para a entrega em alguns países. É o fim do Natal…

Feliz Natal,
Victor Hugo

~ por Victor Hugo em Dezembro 6, 2008.

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